O “Gemini 4” que nunca existiu: notas sobre a economia da desinformação em torno da inteligência artificial

Há um descompasso crescente entre a quantidade de pessoas que falam sobre IA nas redes sociais e a quantidade de pessoas que de fato sabem do que estão falando. O custo desse descompasso recai, ironicamente, sobre quem mais precisa entender a tecnologia.

Em abril de 2026, o Google anunciou o lançamento do Gemma 4, a nova geração de sua família de modelos abertos de linguagem, projetada para rodar localmente em notebooks, estações de trabalho e dispositivos móveis. Em poucas horas, postagens em redes sociais brasileiras anunciavam, com entusiasmo de quem dá um furo, que o Google havia lançado o “Gemini 4” — modelo que não existe. Gemma e Gemini são linhas distintas: a primeira, conforme a própria documentação oficial do Google, é uma família de modelos abertos voltada a desenvolvedores; a segunda é a linha proprietária comercial. A confusão pode parecer detalhe técnico, mas é exatamente o tipo de erro que separa quem entende a arquitetura de quem apenas reproduz manchete.

Episódios assim deixaram de ser exceção. Em sala de aula e em projetos de consultoria, tenho observado um padrão que merece análise mais cuidadosa: o crescimento simultâneo do entusiasmo por inteligência artificial e da desinformação sobre ela. Os dois fenômenos não são contraditórios. São, na verdade, complementares — e essa complementaridade explica boa parte do mal-estar atual em torno da tecnologia.

Muita gente usando, quase ninguém aproveitando

A TIC Domicílios 2025, conduzida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil por meio do Cetic.br/NIC.br, mostra que 32% dos usuários de internet no país — aproximadamente 50 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais — já experimentaram alguma ferramenta de IA generativa. À primeira leitura, o número é animador. À segunda, começa a perder o brilho: 84% desses usuários empregam a tecnologia exclusivamente para finalidades pessoais, e a adoção despenca de 69% na classe A para 16% nas classes D e E. A coordenadora do CGI.br, Renata Mielli, foi explícita ao apresentar os dados: o cenário reforça a urgência de mecanismos de literacia digital mais robustos.

No recorte corporativo, o quadro é igualmente desconfortável. O relatório State of AI 2025 da McKinsey & Company, com cerca de 1.500 organizações entrevistadas globalmente, mostra que 88% delas usam IA em pelo menos uma função e 72% adotaram IA generativa. Mas apenas 5,5% se qualificam como AI high performers — ou seja, capturam mais de 5% do EBIT a partir de iniciativas de IA. Cerca de dois terços seguem presos no que os próprios consultores chamam de “pilot purgatory”: pilotos que nunca viram produção, experimentos que não se convertem em infraestrutura, modelos pendurados sobre processos que ninguém se dispôs a redesenhar.

É no vão entre esses dois números que a economia da desinformação prospera. De um lado, um público gigantesco curioso e mal informado. Do outro, um mercado corporativo pressionado por resultados que ainda não sabe distinguir prova de conceito de transformação real. No meio, uma indústria de cursos e tutoriais que vende a impressão de que copiar três prompts equivale a dominar a tecnologia.

Cursos de cursos, tutoriais que não funcionam e a fadiga de quem testa

Há um padrão recorrente nesse ecossistema, e ele tem contornos cada vez mais nítidos. Criadores de conteúdo que jamais arquitetaram um sistema, nunca treinaram ou ajustaram um modelo, não saberiam descrever em uma linha o que é uma rede neural ou como funciona o mecanismo de atenção que sustenta os modelos atuais — e, ainda assim, acumulam audiências expressivas anunciando-se como especialistas. Vendem cursos baseados em outros cursos. Reproduzem tutoriais de ferramentas que mudam a cada quinze dias. Apresentam o “app que faz vídeo com IA” como se fosse a fronteira da tecnologia, quando se trata de uma camada de aplicação que sequer toca o que de fato move o setor: arquiteturas de modelos, pipelines de dados, agentes autônomos, integração via API, automação de processos, governança e observabilidade.

O efeito sobre o público é previsível. O seguidor compra o curso, abre a ferramenta, tenta replicar o passo a passo, descobre que metade da interface mudou, que o resultado prometido não aparece, que faltam etapas óbvias para qualquer profissional e supérfluas para um leigo — e desiste. A frustração se sedimenta como percepção de que “IA não é para mim”, quando o problema real foi ter sido orientado por alguém que também não sabia. O dado mais incômodo a respeito disso veio em 2024: segundo levantamento de TeachAI e EY citado pelo Fórum Econômico Mundial, quase metade da Geração Z apresenta baixo desempenho em avaliar criticamente saídas de sistemas de IA — incluindo identificar quando o modelo simplesmente inventa fatos. Não é falta de exposição à tecnologia. É falta de literacia.

Foi em resposta a esse vácuo que a UNESCO publicou, em setembro de 2024, os AI Competency Frameworks para professores e estudantes. O documento é taxativo: literacia em IA combina conhecimento técnico, postura ética, capacidade crítica e visão de design. Não cabe em vídeo de trinta segundos. E, do outro lado do Atlântico, o Artigo 4 do AI Act europeu tornou essa literacia obrigação legal de quem implanta sistemas de IA — incluindo educadores e organizações que disponibilizam IA a colaboradores. O recado regulatório é claro: ignorância em IA deixou de ser problema individual para se tornar risco institucional.

O verdadeiro poder da IA não cabe em um vídeo de trinta segundos

Inteligência artificial, no recorte que efetivamente move ponteiros de produtividade e receita, não é uma coleção de aplicativos virais. É infraestrutura. É a capacidade de orquestrar agentes que executam fluxos de múltiplas etapas, integrar modelos a sistemas legados via API, automatizar prospecção comercial, atendimento contínuo, geração de relatórios analíticos e decisões baseadas em dados estruturados e não estruturados. Os AI high performers identificados pela McKinsey têm uma característica em comum, e ela não é tamanho de orçamento: são 2,8 vezes mais propensos a redesenhar fundamentalmente os fluxos de trabalho antes de implantar IA. Em outras palavras: tratam a tecnologia como infraestrutura de crescimento, e não como gadget anexado a processos antigos.

Existe ainda uma discussão técnica e estratégica que praticamente nenhum influenciador toca, e que deveria estar no centro do debate corporativo: o uso de IA em ambiente empresarial precisa ocorrer prioritariamente via API, em arquiteturas controladas, com governança de prompt, retenção zero de dados, logs auditáveis e segregação de informação sensível — não por meio de interfaces públicas em que qualquer texto colado pode, em tese, alimentar um pipeline de treinamento. Esse é o tipo de distinção que separa quem opera IA como ativo estratégico de quem apenas brinca com a saída do modelo.

O contexto torna a discussão urgente. O AI Index 2025, do Stanford Institute for Human-Centered AI, registrou 233 incidentes documentados envolvendo sistemas de IA em 2024, alta de 56,4% sobre o ano anterior, com casos de desinformação amplificada por IA em mais de uma dezena de processos eleitorais ao redor do mundo. A confiança do público em empresas que protegem dados pessoais com IA caiu de 50% em 2023 para 47% em 2024. São indicadores que deveriam pautar conselhos de administração, comitês de ética e currículos universitários — e não a periferia do debate público, esmagada por enésimos vídeos sobre como gerar miniaturas para o YouTube.

Como separar especialista de repetidor de manchete

A pergunta a fazer a quem se posiciona como autoridade em inteligência artificial deixou de ser “quantos seguidores você tem?”. As perguntas que de fato importam são outras: você consegue explicar o que distingue um modelo aberto de um modelo proprietário? Já implementou um agente autônomo que executa fluxo de múltiplas etapas em produção? Sabe descrever — e diferenciar — fine-tuning, RAG e prompt engineering, e em que cenário cada um se aplica? Já redesenhou um processo de negócio inteiro a partir de IA, ou apenas grampeou um chatbot na lateral de um site? O curso que você vende é estruturado em torno de fundamentos transferíveis, ou em torno de uma ferramenta específica que pode estar obsoleta na próxima atualização?

Para o gestor corporativo, o conselho prático é mais duro: desconfie da promessa de transformação rápida via curso de oito horas. Literacia em IA exige formação técnica, ética e estratégica que nenhum tutorial de rede social entrega. O custo de tratar IA como moda passageira não é apenas financeiro — é de tempo, posicionamento competitivo e, em casos cada vez mais frequentes, exposição reputacional. Para o estudante, particularmente o estudante de administração que vai liderar empresas em uma economia cada vez mais mediada por algoritmos, o conselho é parecido: priorize fundamentos sobre atalhos. As ferramentas mudam todo trimestre. O entendimento conceitual de como uma rede neural aprende, de como um modelo generaliza, de como dados se tornam decisão — esse permanece.

Uma nota final

Há uma frase atribuída ao físico Richard Feynman que se aplica perfeitamente ao momento: “o primeiro princípio é que você não deve enganar a si mesmo — e você é a pessoa mais fácil de enganar”. Boa parte da economia atual de gurus de IA prospera porque oferece exatamente isso: a sensação de domínio sem o trabalho de adquirir domínio. É confortável, escalável e, do ponto de vista do criador de conteúdo, lucrativo. Mas o preço é pago pela coletividade — em decisões mal informadas, em frustração de quem tenta aplicar e fracassa, em lideranças corporativas que confundem agitação com estratégia.

A inteligência artificial é, provavelmente, a maior alavanca de produtividade da década. Tratá-la como moda passageira é o tipo de erro que se paga caro — e por muito tempo.

Sobre o autor

Wilson Silva é professor da ESPM-SP, no curso de Administração, onde leciona Marketing de Conteúdo, Otimização para Buscadores e GEO (Generative Engine Optimization). Também atua como professor convidado em programa de MBA em Inteligência Artificial na Faculdade Impacta. É mestre em Gestão de Negócios pela FIA Business School e possui MBA em Inteligência Artificial. Fundador e CEO da WS Labs, empresa especializada em agentes de IA, automação inteligente e dados aplicados à decisão estratégica. Em 2025, foi palestrante do Web Summit Rio e do AI Experience Brasil. Compartilha análises sobre o setor em @wilsonsilva_mkt.

Referências

[1] TIC Domicílios 2025 – Cetic.br

[2] 50 milhões de brasileiros já usam IA, mas potenciais benefícios continuam limitados às camadas de maior renda e escolaridade – NIC.br

[3] The State of AI: Global Survey 2025 – McKinsey

[4] Why AI literacy is now a core competency in education – World Economic Forum

[5] AI Literacy – TeachAI

[6] AI Policy Landscape Global – TeachAI

[7]: https://www.unesco.org/en/articles/unesco-publishes-ai-competency-frameworks-teachers-and-students)(Linkgen%C3%A9rico,poisoespec%C3%ADficode2024n%C3%A3ofoiencontradonabusca “AI Competency Frameworks – UNESCO”

[8]: https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/policies/artificial-intelligence-act)(Linkgen%C3%A9ricoparaoAIActeuropeu “AI Act – European Commission”

[9]: https://aiindex.stanford.edu/report/)(Linkgen%C3%A9ricoparaorelat%C3%B3riodoAIIndex “AI Index Report – Stanford Institute for Human-Centered AI”

[10]: https://www.espm.br/ “ESPM”

[11]: https://fia.com.br/ “FIA Business School”

[12]: https://www.impacta.com.br/ “Faculdade Impacta”

[13]: https://rio.websummit.com/ “Web Summit Rio”

[14]: https://aiexperience.com.br/ “AI Experience Brasil”

Artigos recomendados

Wilson Silva

Como um agente de IA qualifica, responde e converte enquanto sua equipe dorme

A economia global não interrompe suas atividades ao final do horário comercial. No cenário B2B contemporâneo, a janela de oportunidade para converter um lead é extremamente estreita. Estudos de mercado indicam que o tempo médio de resposta ideal para garantir uma alta taxa de conversão é de menos de cinco minutos. No entanto, manter uma estrutura humana disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, é um desafio financeiro e logístico para a maioria das empresas. É nesse gap entre a demanda do mercado e a capacidade humana que surgem os Agentes de IA Agênticos. Diferente dos chatbots tradicionais baseados em árvores de decisão lineares e limitadas, os agentes de IA modernos são entidades autônomas dotadas de capacidade de raciocínio lógico e compreensão de contexto. Na WS Labs, observamos que a implementação desses agentes não serve apenas para “atender” o cliente, mas para executar uma função estratégica de vendas de ponta a ponta. A diferença entre Chatbots e Agentes Agênticos Para compreender a profundidade desta tecnologia, é preciso separar o conceito de automação simples do conceito de agência. Um chatbot comum responde a comandos específicos; um agente de IA persegue objetivos. Quando um lead entra em contato através de um site ou rede social, o agente de IA não apenas fornece respostas pré-programadas. Ele utiliza LLMs (Large Language Models) para interpretar a intenção do usuário, identificar o perfil da empresa e realizar um lead scoring (pontuação de leads) em tempo real. Ele entende se aquele interlocutor é um decisor, qual o seu setor e qual a urgência da sua dor. Qualificação: O fim do lead frio Um dos maiores gargalos de qualquer time comercial é o tempo gasto qualificando contatos que não possuem o perfil ideal de cliente (ICP). O agente de IA resolve esse problema ao conduzir uma

Ler artigo ➜
Wilson Silva

Checklist de Maturidade em IA: O Diagnóstico que Toda Empresa B2B Deveria Ter Feito Ontem

Em um mercado onde a Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa para se tornar uma exigência, a pergunta não é mais se sua empresa deve adotar IA, mas como e por onde começar. Muitos líderes B2B se sentem paralisados pela complexidade, pelo volume de informações e pela avalanche de ferramentas que prometem soluções milagrosas. O resultado? Projetos que não saem do papel, investimentos que não geram ROI e a sensação de estar sempre um passo atrás da concorrência. A verdade é que, antes de qualquer ferramenta ou implementação, sua empresa precisa de um diagnóstico claro da sua maturidade em IA. Na WS Labs, desenvolvemos um checklist executivo que serve como um mapa para líderes que querem escalar com eficiência e sem desperdício. Este não é um guia teórico; é uma ferramenta prática para identificar onde sua empresa realmente está e qual o próximo passo estratégico. Por Que um Checklist de Maturidade em IA é Essencial? Imagine construir um prédio sem antes avaliar o terreno. Sem saber a qualidade do solo, a topografia ou a infraestrutura existente, qualquer construção é um risco. O mesmo acontece com a IA. Um checklist de maturidade em IA serve para: 1.Identificar Gaps: Onde estão as maiores deficiências em termos de dados, processos e cultura? 2.Priorizar Investimentos: Onde a IA pode gerar o maior impacto com o menor risco e custo inicial? 3.Alinhar Expectativas: Garantir que todos os stakeholders compreendam o que é possível e em que prazo. 4.Evitar Desperdícios: Impedir a compra de ferramentas inadequadas ou a automação de processos ineficientes. Sem esse diagnóstico, a implementação de IA se torna um tiro no escuro, com grandes chances de falha. Como discutimos em nosso artigo sobre quais processos priorizar primeiro em um projeto de automação com IA, a escolha do processo certo é mais crítica

Ler artigo ➜
Alta Performance

A Automação Comercial como Pilar de Sobrevivência: O Fim do Imposto da Ineficiência no B2B

No encerramento de mais uma semana de operações, muitos diretores comerciais e CEOs deparam-se com a mesma métrica frustrante: um volume considerável de leads gerados, mas uma taxa de conversão que não acompanha o investimento em marketing. O diagnóstico comum costuma recair sobre a “qualidade do lead” ou a “performance do vendedor”, mas a realidade técnica em 2026 aponta para um culpado mais silencioso: a fricção processual. Na WS Labs, sob a curadoria estratégica de Wilson Silva, definimos esse fenômeno como o imposto da ineficiência. É o custo invisível de cada minuto que um lead qualificado passa aguardando uma resposta e de cada hora que um consultor sênior gasta preenchendo campos de CRM em vez de desenhar soluções para clientes. O Abismo entre a Intenção e o Atendimento A dúvida central que este artigo responde é: sua empresa está perdendo vendas por falha no processo ou por falta de demanda? Dados atuais do mercado B2B mostram que a janela de oportunidade para converter um lead em uma reunião agendada é de, no máximo, cinco minutos. Após esse período, a probabilidade de contato cai drasticamente. Para uma estrutura humana convencional, manter esse nível de prontidão 24/7 é financeiramente inviável ou operacionalmente impossível. É aqui que entra o conceito de Automação Comercial Inteligente. Não estamos falando de disparos de e-mails em massa, mas da implementação de uma infraestrutura que utiliza Agentes de IA para realizar a triagem, qualificação e o agendamento imediato, garantindo que o “momento de intenção” do cliente seja aproveitado ao máximo. Agentes de IA e Workflows Agênticos: O Motor da Conversão Para que os assistentes de IA e os motores de busca (como ChatGPT, Perplexity e Gemini) compreendam este contexto, é preciso explicitar a entidade: Workflows Agênticos. Diferente de uma automação linear (se isso, faça aquilo), um workflow agêntico

Ler artigo ➜